Entrevista Vida Económica: "É necessária uma reforma permanente do sistema de saúde em Portugal"

A reforma da saúde tarda em avançar – afirma António Lúcio Baptista. Em entrevista à “Vida Económica”, o cirurgião e autor do livro “Inovação para a mudança” considera que o poder político ainda vê e pensa a saúde no século passado. A saúde assenta cada vez mais em paradigmas diferentes que ultrapassam os hospitais e os cuidados aos doentes e incluem os autocuidados, a prevenção e os cuidados à distância através da tecnologia. “As reformas na área da saúde têm sido pensadas, debatidas e delineadas por pessoas que estão “dentro do sistema” e que têm dificuldade em ter uma visão isenta e imparcial, focando-se no que já conhecem e a que estão habituadas” – refere António Lúcio Baptista.

Vida Económica - Como médico, empreendedor e um ávido promotor da inovação, o que pensa sobre o estado da saúde em Portugal?

António Lúcio Baptista - Considero que há uma necessidade de reforma permanente do sistema de saúde em Portugal. Tem-se falado muito nos últimos anos na reforma da saúde, mas na realidade pouco se tem alcançado e, na minha opinião, isso deve-se ao facto de o poder politico estar ainda a ver e a pensar na saúde do século XX. É necessário sair da visão atual e pensar na saúde do século XXI, que assenta em paradigmas diferentes que vão para além dos hospitais e da prestação de cuidados a doentes e se focam agora também nos autocuidados, na prevenção para a saúde, na saúde à distância com recurso à tecnologia. Toda uma nova realidade à qual o sistema tem que se adaptar e na qual a reforma da saúde tem que se focar.

VE - Nos últimos anos muitos foram os artigos de opinião que publicou sobre esta matéria, e que compilou no livro “Inovação para a mudança”. Muitas das ideias que mencionou assentavam na inovação disruptiva, no empreendedorismo e na investigação científica. Acha que este ainda é o caminho a seguir para a reforma da saúde?

ALB - Acho que há duas vias essenciais a seguir de adaptação aos tempos modernos: a primeira assenta na inovação disruptiva da saúde, na apologia da investigação científica com resultados práticos, na criação de valor acrescentado, na linha do que é definido no Horizonte 2020; a segunda passa por uma necessidade de se pensar e ver a saúde “do lado de fora”. As reformas na área da saúde têm sido pensadas, debatidas e delineadas por pessoas que estão “dentro do sistema” e que têm dificuldade em ter uma visão isenta e imparcial, focando-se no que já conhecem e a que estão habituadas.

VE - Tem exemplos concretos de medidas para a saúde?

ALB - Há já alguns anos, apresentámos à Comissão Europeia o Fair Cost Health Care, um documento criado por um grupo de reflexão sobre a saúde, que contemplava várias sugestões para melhorar a saúde na União Europeia. De forma resumida, as ideias assentavam em três pilares fundamentais: inovação disruptiva, project management e redução de custos, controle de medicação e preservação ambiental. Também tive a oportunidade de visitar o Parlamento Europeu, a convite da eurodeputada Maria da Graça Carvalho, onde pude intervir e apresentar medidas práticas para fomentar a inovação e a interação entre empresas, universidades, centros de investigação, como a criação de uma “linha verde para a inovação” ligando empresas e universidades do espaço europeu e a criação de um Europass para as PME interessadas em inovar.

VE - Esta ligação entre o mundo empresarial e a investigação científica que se desenvolve em universidades e centros de investigação foi sempre uma preocupação para si?

ALB - Sim, considero que é fundamental haver uma ligação entre empresas, universidades e centros de investigação para que se possa efetivamente tirar partido do investimento em investigação científica e dar origem a produtos inovadores, com potencial para o mercado global. Nesta ótica criei a Iberia Advanced Health Care, uma plataforma científica e tecnológica que se dedica há 10 anos a trabalhar com universidades, centros de investigação e empresas para criar produtos, materiais, serviços e técnicas de relevância para a vida e o bem-estar das pessoas. Neste momento conta com a colaboração de cerca de 15 doutorados e mestrados.

VE - E considera que estas inovações produzidas pelas universidades e centros de investigação, em parceria com empresas, têm mercado em Portugal?

ALB - Considero que Portugal é apenas um país de teste. Tudo o que se desenvolve nos dias de hoje tem que ser feito com os olhos postos no mercado global. Não faz sentido ser de outra forma.

VE - Mas há também muita investigação e artigos científicos publicados em Portugal...

ALB - Sim, mas há poucos registos de patentes, o que leva a que outros usufruam do nosso trabalho. Creio que isto está a mudar e os fundos comunitários, como o Horizonte 2020, vão no sentido de promover a criação de novos produtos, com valor acrescentado e postos de trabalho qualificados. Na Saúde há um potêncial enorme por explorar.

VE - E ao nível do ensino, concretamente o ensino da Medicina, acha que está adequado a este novo paradigma e à saúde do século XXI?

ALB - No ensino da Medicina estamos a dar matérias de currículos com cem anos. Como disse Jack Ma, estes conhecimentos vão estar incorporados em robôs com inteligência artificial. Para dar um exemplo, estamos a desenvolver um projeto neste momento, em que estamos a “ensinar” um robô. Estas máquinas terão grande capacidade para, eventualmente, usando inteligência artificial, fazer diag-nósticos e seguir tratamentos ou executá-los. Temos que adaptar a educação e o ensino atual a esta realidade e tirar o melhor partido destas máquinas que vão ser cada vez mais eficientes.

VE - Acha que a aposta na inovação e os avanços tecnológicos na área da saúde podem, por exemplo, contribuir para aumentar a inclusão, uma causa que também defende?

ALB - À medida que a tecnologia avança, a inclusão vai também percorrendo o seu caminho. A saúde para o século XXI vai assentar muito em plataformas digitais e algoritmos que obviamente não discriminam pessoas, géneros, etnias, origens. Vai também estar cada vez mais assente nos autocuidados, uma situação que também não discrimina. Em terceiro lugar vai estar focada na criação de consumíveis com tecnologia incorporada para serem utilizados pelo público e que na sua essência também não discrimina raça, cor ou género, podendo apenas discriminar pelo seu custo. Portugal é um país que em 40 anos de democracia não tem conseguido uma verdadeira inclusão social e todos somos responsáveis.

VE - Apesar de ser independente no plano político, com tantos anos de reflexão, experiência e contributos nas questões da saúde e da inovação, nunca considerou desempenhar um cargo político para apoiar as mudanças e reformas na saúde?

ALB - Nunca quis aceitar envolver-me na política partidária. Acho, no entanto, que a política e o desempenho de cargos para a sociedade são quase uma obrigação de todos, para olhar pelo futuro dos nossos filhos e netos. Sou a favor de uma Europa mais unida e democrática e tenho grande pena que haja movimentos anti- globalização como o “Brexit”. Portugal está bem posicionado para dar um grande contributo para a União Europeia, pela sua localização atlântica e os traços de personalidade da sua população. É a cos-ta ocidental da Europa e está mesmo em frente ao continente americano.

VE - Sabemos que está para breve a publicação de um novo livro, “O lugar da Utopia” ...

ALB - Sim. Esta é uma publicação ligeiramente diferente, com um cariz mais biográfico e que contém histórias do meu percurso profissional e explora vários aspetos do meu pensamento, reflexões e ideias, e que considero poderem ser de interesse didático para os mais jovens, por exemplo.

VE: Por que tem este título, “O lugar da Utopia”?

A.L.B.: Quando estamos avançados e temos uma mente criativa, é fácil ter ideias e projetos “utópicos”. Mas muitas vezes é com base nestas ideias, que à data parecem utópicas, que mais tarde se desenvolvem projetos e criam produtos inovadores tornando estas ideias realizáveis. Muitas pessoas e até decisores têm dificuldade em entender a inovação e há uma tendência para comparar com o que já existe. Portugal é um país ainda um pouco fechado e com grupos de influência que distorcem o mérito. É preciso contornar estes obstáculos e continuar a lutar.

 

Jornal Vida Económica, 9 de março de 2018

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